segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Maçãs de ouro...

"O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angústias a sua alma". (Salmo 21: 23)



Vivemos numa sociedade que não preza pelo silêncio...
O silêncio incomoda, quando não atormenta. O barulho distrai, nos salva do auto confronto a que nos convoca uma meditação silenciosa. Guardar silêncio diante do outro, então, soa constrangedor, por isso nos pomos a falar, ainda que se não tenha nada a dizer. Um cumprimento nervoso, seguido de observações superficiais sobre o clima ou qualquer outra trivialidade em que nos apegamos como bote salva vidas num mar revolto. Somos condicionados culturalmente à comunicação. A sabedoria, porém,  recomenda nos prudência. Muitas são as citações: 

"O Falar é prata e o ouvir é ouro"
"Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita ao seu tempo"
"No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente".  

A fala não é o único meio de comunicação, às vezes um olhar diz muito mais. Quem pode se esquecer daquele encontro entre Jesus e o jovem rico? Depois de falar ao jovem e perceber que este não o compreendia, o evangelista Marcos observa:  " Fitando-o, Jesus o amou".

Mas, pessoas querem falar...por trás da fala está  o impulso desesperador por se fazer notar, pois é fácil se perder entre as multidões.

Em seu martírio, Jesus pouco falou...Isaias já tinha profetizado que "...tal como ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca".

O paradoxo é revelador...

Nas poucas vezes em que falou, demonstrou preocupação com os outros; a João, disse: "Eis aí tua mãe" e a Maria disse: "Eis aí teu filho"

Noutro momento ainda, pediu que Deus Pai perdoasse seus algozes e, ao ladrão moribundo, prometeu o Reino do Céu...

Palavras... poucas...mas que vivificavam.

Na sociedade da comunicação em que vivemos ferimos e somos feridos. As línguas se convertem em lanças de pontas incendiárias atiradas a esmo, daí se entende porque as almas se angustiam cada vez mais e a civilidade  rareia.

Há um convite, entretanto, para um grande banquete restaurador. O Rei nos aguarda para a grande festa. A mesa está posta e nela há fartura de amor, perdão, misericórdia e...maçãs de ouro...

Aproximem se, pois, ao Rei não convém fazer esperar...

sábado, 8 de outubro de 2011

Os "poréns" da vida...

"E Naamã, chefe do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu senhor, e de muito respeito; porque por ele o Senhor dera livramento aos siros: e era este varão homem valoroso porém leproso". (II Reis 5:1)



Uma biografia de sucesso... quem não deseja ter uma? 
"Mais vale o bom nome que as muitas riquezas", diz um provérbio bíblico. 
O ser humano não foi feito para o anonimato. Ainda que muitos se escondam, escolhem esconderijos deixando rastros. O reconhecimento é uma necessidade latente. 
Gente não é como gotas que aos trilhões de trilhões compõem o mar azul  em uma síntese de beleza emoldurada na paisagem. Muito menos como humildes grãos de areia espalhados pelo vento que hora aqui, hora acolá, protagonizam conjuntamente um espetáculo visual aparentemente desordenado. Gente quer destaque, na verdade precisa dele para se sentir gente. De toda a criação de Deus, gente, seguramente é a mais complexa.
A natureza em todas as suas manifestações exalta o seu criativo Criador. 
"Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos". 
E o homem?
O homem se fecha em suas lamúrias, nos poréns da vida que se interpõe entre sua miséria existencial e a glória que lhe é objeto do desejo.
Não é de hoje que o homem se sonha divino, porém sua sentença é clara:
"És pó e ao pó há de tornar". 
Nem todo o ouro que cintila nos sarcófagos faraônicos, nem todas as conquistas do grande Alexandre, nem as vitórias acumuladas do general siro, livraram suas biografias dos poréns que os detiveram de serem alçados ao cume do Olimpo. E é assim que é desde os tempos mais remotos, todos os dias nossa finitude nos é lembrada...
Moisés falou em sua oração: "Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; acabam-se nossos anos como um conto ligeiro".
O Pregador continuamente adverte que "Tudo é vaidade e correr atrás do vento". 
A glória não reside na individualidade, mas no coletivo, na partilha, no descobrimento do outro que nos exercita o espírito.
Os "poréns" da vida que "mancham" nossas biografias, são na verdade pequenos lembretes de que é o Criador quem escreve nossas histórias.
Não fosse a lepra de Naamã, sua serva continuaria lhe sendo invisível, como invisível se tornam todos a nossa volta quando almejamos uma biografia sem "poréns".
Ou aprendemos essa rica lição de bom grado ou continuaremos sendo mergulhados nos rios da nossa estupidez.
Encerro orando, novamente com Moisés:
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios." (Salmo 90:12)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Deitar e dormir...

"Em paz me deito e logo pego no sono, por que só tu, Senhor, me fazes repousar seguro". (Salmo 4:8)


Deitar e dormir é tudo o que muitos estão precisando. O que foi concebido para ser algo natural, em muitos casos consegue se tão somente à base de pílulas tranquilizantes. Mas o que foi que aconteceu? Nos cercamos de cuidados e percebemos que todo o cuidado não é suficiente. O controle da vida e das circunstâncias nos vaza escorregadio pelos vãos dos dedos. Nos intimidamos ao perceber o tamanho de nossa insignificância. Cerrar os olhos torna-se então a experiência dos loucos que, vencidos pelo sono, sucumbem vulneráveis.
Não foi assim com o monarca Saul? Flertou com a morte ao dormecer na caverna e,  por muito pouco, esta não lhe serviu de túmulo. No entanto, foi alvo da misericórdia do poeta a quem perseguia, que noutros tempos dedilhava docemente a harpa que lhe exorcizava a insônia. Este mesmo poeta salmodiou à posteridade que para se pegar no sono, deve se deitar em paz. É condição sine qua nom. Mas o que fazemos? Deitamos com problemas e preocupações, angústias sem fim nos atormentam por não termos aprendido a colocar no Senhor a nossa confiança, nem a fazer dEle o nosso porto seguro. De que nos adianta tantas preocupações se o Pregador já  advertiu a séculos que "tudo é vaidade e correr atrás do vento"?
Se em meio às tempestades do cotidiano nosso barco parece frágil, lembremos que maior que o barco é quem está nele.
"Só tu, Senhor, nos fazes repousar seguro", ensinou o músico, o poeta, o salmista, o homem segundo o coração de Deus. Diante disso, só nos resta deitar, orar, apagar a luz, relaxar,  ...
...e dormir.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O vazio que preenche...


"Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo; e que também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade, e que há desvarios no seu coração enquanto vivem, e depois se vão aos mortos." (Eclesiastes 9:3)




As vezes tento esvaziar me ... parece um vão exercício.

Invejo os que conhecem o silêncio nas encostas de morros enverdecidos...
Os que dormem com janelas abertas, tendo estrelas por testemunha da serenata dos grilos.

Invejo a paz do sorriso infantil, mesmo que manifesta num rosto senil.

Invejo a harmonia das cordas das harpas e dos violinos...as teclas fustigadas do piano velho...a música que penetra na alma  e adormece o valente.

Invejar não é bom, como não é bom não ter...mas não ter o que?

O vazio que preciso, neste vão exercício, de dança de palavras 
em busca da Paz.

Paz, seu nome é Jesus!

É a ti que procuro, mas cheio de mim não há lugar pra ti...

Esvazia me agora...usa a paisagem, usa a música ou a poesia, a criança ou o velho, o texto ou a prosa...

Só não me deixe cheio de mim, pois eu não mais me aguento...

Por isso mesmo, Príncipe da Paz... eu me rendo.



segunda-feira, 21 de março de 2011

Quando os deuses choram...


Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou. (Evangelho de Lucas 19:41)

A capacidade de Deus se condoer diante do caos humano...

Ja chorei intensamente, mas faz tempo que não o faço...choro sentido, choro doído, choro como expressão de uma angústia infinita, um sufocamento desesperador de tristeza. Estes foram meus verdadeiros choros, lágrimas vertidas pelo remorso, pelo arrependimento, pelo que deixei de viver em busca de uma felicidade que ja me pertencia. O choro da impotência, o choro torrencial...o choro que só se esgota no sono do qual lamentamos despertar.

""Chorar é diminuir a profundidade da dor." (William Shakespeare)

O choro é a manifestação mais humana dos humanos e também dos deuses...

Me lembro de Orfeu,o filho do deus sol, que encheu-se de amargura e tristeza após a morte de sua amada Eurídice. Entoava melodias tão triste que os deuses choravam ao ouvi-las...

Uma coisa me ocorre nesse devaneio, chorar não é atributo só de homens e de deuses, mas quando o próprio Deus chora, cai sobre mim como chuva inesperada um questionamento inquietante...a motivação do meu choro.

No geral meu choro começa e termina em mim mesmo. Eu sou a fonte de minha própria angústia.

Mas Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, condoído pelas lágrimas de suas irmãs.

Jesus chorou diante de Jerusalém que matava seus profetas.

Jesus chorava pela dor do outro e não pela sua própria dor.

A tragédia das nações, sejam elas produzidas por bombas aliadas, pelo despertar dos vulcões ou pela fúria subterrânea de placas em conflito, me impressionam, mas não convidam minhas lágrimas ao cortejo fúnebre de suas vítimas.

Sou um produto da minha época, não tenho tempo de chorar e, por isso mesmo, me redescobrir...me reinventar.

De nada me consola saber que não estou sozinho no deserto causticante da indiferença...

Mas com o Deus que se fez homem aprendo que chorar é preciso, mais que nunca...

Não por minhas mazelas, e sim pelas do mundo, pois ainda que chore a noite inteira, a alegria virá ao amanhecer.

sábado, 19 de março de 2011

Procuro Deus! Procuro Deus!


Por mais que eu tente, às vezes é difícil não perguntar por Deus...

Deus, onde estás???

Quem, ainda que se negue deísta, já não teve a sensação de que Deus se retirou do mundo? Que se cansou de nós? De que é sublime e grandioso demais para corroborar com nossas ilusões infantis de sua proximidade?

Desconfio de pessoas "íntimas" demais de Deus...que falam com tamanha propriedade: "Deus me revelou" ou ainda, "Deus me disse"...

Não há dúvida que precisamos de Deus, tal como o homem louco da Gaia Ciência de Nietzsche...

"O homem louco. - Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: "Procuro Deus! Procuro Deus!"? - E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? - gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. "Para onde foi Deus?" gritou ele, "já lhes direi! Nós o matamos - vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós?

Imagino que este seja o sentimento de muitas pessoas que, como eu, olham pra um Japão arrasado por terremotos e tsunamis, pra uma Líbia em guerra civil, pra uma área do globo que cansou das ditaturas e que clama por liberdade.

Para onde nos movemos nós em meio a tanta incerteza e complexidade da existência? Em meio a cadáveres que se acumulam vitimados por tragédias sucessivas?

A busca do lucro, a escravidão ao capitalismo, a subserviência a Mammon, a perda da humanidade e dos valores, a cultura do culto auto hedonista?

Para onde nos movemos nós? Cada dia nos distanciamos de Deus, mas continuamos a procurá-lo na esperança de que não tenha morrido, enquanto morremos lentamente...

Ainda que moribundos, ouvimos o sussurro dos profetas:

“Não vos assombreis e nem temais; acaso, desde aquele tempo não vo-lo fiz ouvir, não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas. Há outro Deus além de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça.” (Is 44:8)

Recobramos as forças que julgáva-mos não mais existirem para ainda perguntarmos:

Deus, onde estás?

“Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57: 15)

Nisso entendemos que é na solidão dos que o procuram, no hospício que nos abriga a razão, no caos das nossas misérias existenciais das quais tanto queremos nos livrar, que Deus "se esconde"...

Joguemos fora nossas lanternas, não precisamos mais delas.

Céu pra que?


"Favos de mel manam dos teus lábios, minha esposa! Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano" (Cantares 4: 11)

De manhã cedo lá na casa da fazenda
Vai surgindo como lenda um cenário de amor
Café quentinho feito no fogão de lenha
Prosa farta, que gostoso começar o dia assim...

Falar de amor com você é tão gostoso
Teu jeitinho tão dengoso me faz quase enlouquecer
E o teu abraço, o teu cheiro e o teu beijo
Me envolvem de tal forma que eu pergunto:

Céu pra que?

O arco-íris desponta lá no horizonte
Por detrás daqueles montes chuva e sol a se mesclar
Quanto mais bela se desenha a paisagem,
Mais me encanto nessa viagem
Proseando com você...

Nem mesmo a passarada em revoada, ou mesmo a noite enluarada
Em todo seu esplendor
Quanto mais bela se desenha a paisagem,
Mais me encanto nessa viagem
Proseando com você...

Falar de amor com você é tão gostoso
Teu jeitinho tão dengoso me faz quase enlouquecer
E o teu abraço, o teu cheiro e o teu beijo
Me envolvem de tal forma que eu pergunto:

Céu pra que?

Passou o dia e se quer nos demos conta
Agora é noite que remonta nostalgia de paixão
Temos assunto pra varar a madrugada
Prosa farta, que gostoso terminar o dia assim...

Falar de amor com você é tão gostoso
Teu jeitinho tão dengoso me faz quase enlouquecer
E o teu abraço, o teu cheiro e o teu beijo
Me envolvem de tal forma que eu pergunto:

Céu pra que?

(Letra e Música / MP)