"Mas para vós que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça..." (Profecia de Malaquias 4:2)
E assim chegamos ao final de mais um ano...
Sejamos francos, pouca coisa mudou...
Pelo menos na vida da maioria de nós.
E a pergunta que fica é:
Era mesmo necessário mudar?
Por que ansiamos tanto por mudanças?
A cada ano nos despedimos do ano velho que doze meses antes celebramos como novo.
Isso é uma pequena amostra de como vemos a vida.
Suportamos a existência quando deveríamos vivê-la, celebrá-la... como uma dádiva divina.
Mas como, se O Deus que nos presenteou a vida é resignificado a todo instante segundo nossas conveniências?
A mudança que muitos de nós queremos é a mudança do outro.
O ser humano é capaz de entediar-se com a mais bela paisagem se não estiver de bem com a sua alma.
A cada ano que se torna velho concluo que o velho sou eu.
Despeço-me do ano velho porque não tenho coragem de despedir-me de mim mesmo.
Assim, vou colecionando lamúrias e me acrescentando pesos que me farão arrastar por mais um ano que era para ser novo.
Não sou contra mudanças...penso mesmo que elas são necessárias, mas mudança alguma será satisfatória para quem não se propõe a mudar primeiro.
Precisamos urgentemente fazer as pazes com a vida, reconciliando-nos conosco mesmos.
Somente assim as mudanças serão efetivas e duradouras, pois terão partido do lugar certo...
...de dentro de cada um de nós.
Feliz vida nova!
Marcelo de Paula
Gosto muito de devanear ouvindo música. Convido você a essa viagem comigo depois do que acabou de ler. Lembre-se que Deus te fez para ter comunhão com Ele, para ser feliz, pleno(a), absoluto(a). Aceite, pois, o projeto de Deus para sua vida, que passa pela cruz.
"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados" (Carta de S. Paulo, Apóstolo aos Efésios)
Fiquei por alguns momentos observando aquela moça...
Dividíamos o mesmo espaço...um jardim oriental que decorava o quintal de uma clínica.
Eu, ela e algumas abelhas, que cortejavam lindas rosas emprestando uma beleza ímpar ao local .
O som de uma pequena cascata preenchia o ambiente com sua melodia constante e harmoniosa.
Fluía paz ali, ou quem sabe...em mim.
Não há como não devanear em condições assim, logo eu, que preciso de bem pouco para fazê-lo.
Ah, sim... a moça...
Cabelos lisos, preto, curtos, tipo chanel, camiseta preta sob um colete e bermuda jeans...
Calçava tênis sem meia, clara, de beleza rústica.
Tudo nela indicava fazer parte de algum movimento de contracultura.
Mas foram suas tatuagens que recobriam ambos os braços, as culpadas por esse devaneio...
No braço direito, um violino...
Pouco abaixo deste, uma maçã, e, dentro dela, o mapa mundi.
No outro braço, três rostos enfileirados do que pareciam ser soldados de chumbo, fardados em frente a uma fábrica e uma inscrição em inglês que dizia algo como: "somos como robôs...estamos mortos".
Foi aí que percebi, ao olhar pessoas entrando e saindo daquela clínica, o fundamento da crítica que sua pele estampava.
Passei a refletir sobre como ser mais significativo para as pessoas à minha volta...
Como deixar de agir feito um robô programado pelo sistema...
Algumas pessoas terei uma chance só de ver na vida...
Preciso deixar-lhes ao menos meu sorriso, e este, com significado.
Não quero viver correndo para lugar nenhum, sabotando minha necessidade de convivência.
Somos condicionados a sistematicamente desumanizar e coisificar o outro.
Somos como robôs...não vivemos para além do que nos deixamos programar...estamos mortos.
Tem pessoas que são como âncoras para nós...
Nos são referência, porto seguro, ouvidos atentos, voz oportuna...são significativas.
Pessoas que não deveriam morrer, mas que morrem...porém, continuam significando.
Minha morte tem que ser sentida...se não for, significa que passei a vida sem significar.
E isto não quero, viver morto.
Ser significativo é isso...
É ser necessário...é ser presente...
É passar mensagem a desconhecidos, ainda que sem saber...
É ser do seu próprio jeito, ainda que diferente, mas que de uma forma ou de outra, comunica.
Ser significativo é ser lembrado quando a coisa aperta...
É provocar riso mesmo estando ausente...
é fazer saudade quando se parte.
É com um simples bom dia, tornar bom o dia de alguém.
É contribuir para que o mundo seja mais musical e menos pecaminoso.
Enfim...
É ser como Jesus foi e nos ensinou a ser.
"...homem de dores e que sabe o que é padecer." (Profecia de Isaías - cap. 53)
Confesso que tenho medo da dor...
Não da dor do corpo, mas da dor que dói na alma.
Aquela que grita em silêncio...Grito que ecoa no vazio da indiferença de um mundo por demais ocupado.
Aquela que não encontra consolo, por este já não existir...
...que se reproduz no tempo que não passa...
...que te judia ao cair da noite fria quando a lua sorri tímida entre estrelas quase opacas.
Aquela que te convida à valsa fúnebre do absurdo, e te conduz feito aprendiz do sofrimento.
Aquela que te rouba o chão e te faz sentir ninguém.
Aquela que sente o rejeitado...
...o que ama em segredo...
...o que dorme ao relento...
...o que esperava o mínimo e não teve nada...
Aquela que sente o injustiçado...
...o que desconhece a razão de tanta desventura...
...o preterido no banquete da felicidade...
...o que almeja o fim, por não ter tido sequer começo...
Ficaria horas devaneando sobre as possibilidades da dor.
Longe de ser um auto flagelo, é um exercício de humanidade...
O medo da dor não me inibe de refletir sobre ela.
Sei que pessoas sofrem ao redor da terra.
Não me permitirei anestesiar pela indiferença.
Quero dividir meus medos para que os que sentem o mesmo saibam não estar só, pois, das piores dores da alma, é aquela que a gente sofre sozinho.
O que costuma me acalentar nessas horas é conhecer um homem muito especial, conhecer por experiência, de andar com ele...
O profeta o chamou de "homem de dores e que sabe o que é padecer".
Ele também se viu só...
Do alto de uma cruz viu o céu enegrecer e a chuva desabar...
Viu sua mãe chorando em prantos sem poder lhe consolar.
Viu no olhar de seus discípulos o pavor do desencanto.
Por passar por tudo isso, Ele sabe te compreender...
Mas confesso que ainda tenho medo da dor, assim como você...até um dia...
...tudo isso passar.
Marcelo de Paula
Dentre as muitas dores, uma das mais recorrentes são as de amores mal sucedidos...
Divido com vocês "O que mais dói" dos rapazes do Rascal Flatts...
"Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza" (Livro de Jó 42:6)
Eu, igual...
Igual a você...
...e quantos mais?
Pensavas ser o único habitante do vale do silêncio?
Aquele lugar onde os rios são de lágrimas e as estradas não levam a lugar algum...
Onde a noite chega depressa, mas custa...como custa amanhecer.
Castelo de sonhos abortados...parque de depressão...
Colo de mãe triste cuja semente não vingou.
Canto em que o canto desafina com o desencanto dos desencontros.
Lugar sombrio...interior de nós, vós...eles.
Mas quem se importa?
Eu me importo...
Eu, igual...
Igual a você...
...e quantos mais?
Quando as dores se encontram ficam menos dolorosas...
e o cuidar da chaga alheia nos faz sentir mais fortes.
Ah, este mundo de aparências, onde a felicidade nos é servida em pílulas de placebo...
Acreditamos no que nos convém diante da ausência de certezas.
Não, não quero parecer herói, muito menos sóbrio...
Não quero ser a voz que aponta o caminho...
Antes, quero caminhar com os que perderam a voz.
Eu, igual...
Igual a você...
...e quantos mais?
Se somos iguais, demo-nos as mãos...
Façamos companhia à solidão uns dos outros.
Dispensemos o orgulho torpe que nos distancia.
Vivenciemos plenamente a experiencia de sermos humanos.
Livremo-nos das máscaras que não nos permitem reconhecer no outro.
Admitamos nossas contradições e nossa fome de verdade.
Perdemos o aconchego do Paraíso ao adentrarmos o portal da insensatez...
Crucificamos a nossa paz ao escolhermos Barrabás...
A terra prometida nos aguarda, no entanto...
Lá os rios são de água, água pura e cristalina, e O Caminho leva à vida...
O sol brilha constante, ilumina e aquece nossas penumbras...
Colo de mãe satisfeita com o filho alimentado...
Canto de anjos, miríades deles, que cantam encantados pelo reencontro de Pai e filho.
Lugar de Paz...interior de quem quer que aceite o projeto restaurador de Deus.
Nascemos para viver, e viver intensamente...
Eu, igual...
Igual a você...
...e quantos mais?
Marcelo de Paula
Para Carine Gama e todos os que, como nós, enxergam o invisível.
"Para quem iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna"?
(Evangelho de S.João, Apóstolo, 6:68)
Para quem iremos?
Pior que a falta de esperança é a desesperança.
Não, não é mero jogo de palavras...nem mesmo um simples devaneio, é uma constatação.
Falta de esperança é a "não esperança"...aquela que nem chegou a existir.
Desesperança, por sua vez, é a esperança que deixou de esperar...
É a esperança que, cansada, desesperançou...
que desistiu...
Esperança que morre, pense comigo, nunca foi esperança.
Esperança vai além do sentimento...não é suscetível à inconstância de nossos humores.
A esperança é multiplicadora...
Que seria daqueles que se inspiram em nossa esperança vendo-a desesperançar?
Não quero nem imaginar.
Temos mil razões para cansar, é verdade, mas...um milhão delas para se recompor.
Temos referências, temos para onde olhar...
Temos porque esperar e, mais que isso, por quem esperar...
"I have a dream today"
Que seria dos negros em todo o mundo não fossem a esperança de Martin Luther King e também de Mandela?
Que seria de tantos miseráveis na Índia não fosse Madre Teresa, que, diga-se de passagem, quase desesperançou...
Seria a Índia independente não houvesse Mahatma Gandhi?
Seriam oitenta mil crianças libertadas do trabalho infantil nesse mesmo país, não fosse pelo desprendimento e compromisso do ativista Kailash Satyarthi?