segunda-feira, 26 de março de 2012

O vale da sombra da morte...

"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo"... (Salmo 23, de Davi)






"A morte é a meta da nossa vida; é o objetivo fatal", refletiu Michel de Montaigne, em certa ocasião.

"Vão, vêm, pulam e dançam; e da morte nenhuma palavra", prossegue o filósofo.

"Tudo isso é muito bonito, mas quando ela chega e os alcança, ou a suas mulheres, filhos e amigos, surpreendendo-os subitamente e sem preparo de espírito, quantos tormentos, gritos, desesperos! Como ela os esmaga"!


Me aproprio de Montaigne  para devanear sobre a experiência universal e inevitável da morte.

Nada há mais democrático nessa vida...e também, banalizado, ao menos enquanto se ocupa de outras presas.

O fato é que morte acolhe a todos.

Alguns talvez parem a leitura por aqui, mas seguirei devaneando...com os mortais.

Sei, enquanto aqui escrevo, que não poucos estão atravessando esse vale, não obstante tratar-se de uma experiência solitária.

Valentes juram não temê-la...

Como, porém, não temer o que o próprio Cristo temeu? "Pai, se possível afaste de mim esse cálice"

O salmista considera a hipótese de não temê-la...a condicional, no entanto, o trai...(ainda)...

Não precisa estar convalescente de uma enfermidade grave para conhecer o vale tenebroso, ou mesmo ligado a aparelhos em função de um acidente. Basta que se esteja vivo. Muitos passeiam por esse vale em plena vida...

Plena?

São pessoas que vivem no passado ou futuro, mas que não suportam seu presente. Pobres almas que não leram o cético humanista Montaigne, nem o homem segundo o coração de Deus, Davi.

A morte não é pra ser temida e muito menos desejada, mas pra ser considerada sem traumas, na medida da percepção de sua inevitabilidade. Como bem disse Fernando Pessoa "O homem é um cadáver adiado"

O que aflige a muitos nem é a morte em si, mas a sua forma...como se dará, e a consequência direta sobre  os seus, que ficam...ocupar-se com isso é antecipar o próprio luto...é velar a si mesmo...é perder a oportunidade de viver a curta vida. Numa palavra, inútil.

A morte só enche de desespero quem não sabe o que esperar para além dela...Alguns nem o nada espera.

Cristãos, como este pregador que vos escreve, também vivenciam o dilema da hora derradeira, mas guardam uma certeza que a faz serenar...

S. Paulo, Apóstolo, escreve aos romanos:

"O salário do pecado é a morte, mas os dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus".

Vida eterna...?

Sonho, utopia, devaneio... Seja o que for é uma esperança, e só espera, quem vive.

Não permita que o desânimo lhe mine a vida que ainda pulsa. Agarre-se à vida. Tenha-na como um presente de Deus.

Reaja, pois...

Termino esse devaneio como comecei, com Montaigne:

"Nascemos para agir...quero agir sem cessar e que a morte me encontre plantando as minhas couves sem pensar nela e menos ainda na imperfeição de minha horta."




Marcello di Paola

5 comentários:

  1. Também eu, como sempre, gosto muito da forma como escreve e devaneia, do olhar que tem sobre as coisas.
    Sobre a morte, não conhecia e gostei demais da citação do Fernando Pessoa.
    Como creio, do mais profundo de minha alma e da minha razão, que a morte é apenas física, acredito também que as pessoas sofrem por não compreenderem e sentirem isso no seu coração. Deus é soberanamente bom e justo, tudo é processo.
    Sendo assim, concordo com você de que precisamos dar atenção ao presente e nele nos prepararmos para aceitar a morte como fato natural, como mais um processo que faz parte de tudo quanto é natureza física.

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  2. Leinha, sempre presente...obrigado de novo.

    Que bom, Cida, querida, te ver por aqui com sua fluência intelectual e serenidade...

    Isso mesmo, processo...bjs

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  3. Cláudio Pinheiro Gomes24 de setembro de 2012 08:47

    Parabéns, Marcello. Um texto coerente (não tem absolutamente nada de devaneio), agradável para uns, talvez atormentador para outros, mas com certeza verdadeiro para todos nós. Nos convida, ou melhor, nos convoca à reflexão.

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    1. Obrigado, Claudio...suas palavras muito me estimulam. Recebo com humildade e gratidão.

      Deus te abençoe grandemente, amigo.

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