segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Presente de Deus

"...mas servi-vos uns aos outros pelo amor." (Carta de S. Paulo, Apóstolo, aos Gálatas 5:13)



Pela fresta da cortina, ainda com olhos semi cerrados, percebi que era manhã de sol.

Elevei meu pensamento a Deus numa breve oração pedindo forças para  enfrentar mais uma semana.

Chega uma fase em nossas vidas que custamos a perceber as novidades. A vida parece acontecer de forma previsível, em movimentos repetitivos, tediosos...quase automáticos.

Nossa sede de existência é muito maior do que ela nos pode suprir. Não é por acaso que quando adultos, nosso mau humor sucumbi diante de uma criança alegre.

É tão mais fácil caminhar sem o acúmulo dos dias...

Sem a soma das desilusões e dos castigos que nos infringimos...

Sem as cicatrizes que nos lembram dores já superadas.

Viver por viver já não nos basta...precisamos de sentido. Não só de direção, mas para ser...

Precisamos do ar não só para respirar, mas também inspirar...

Precisamos das flores não só para nos seduzir os olhos, mas para nos perfumar a alma...

Precisamos do outro não só pela companhia, mas para sermos notados e também notar...

O ser humano é assim... tal como uma caixa de presente...

Por linda que seja, só fará sentido se o conteúdo for acessado.

Somos presentes de Deus uns para os outros...

Somos surpresas que mudam destinos...

Somos respostas a orações feitas em lágrimas.

Desconhecemos nosso potencial para ser benção...

O outro sente...de alguma maneira percebe o nosso afeto e carinho.

Não há tédio que resista a tamanha reflexão.

O sentido da vida jamais será encontrado na introspecção egoísta, mas é bem possível que o seja na prontidão em servir, acolher e amar incondicionalmente...

Por menor que julguemos ser nossa luz, ela pode ser como o sol do meio dia para quem sofre mais que nós.

Aprendi hoje que a força para viver consiste em pensar mais no outro do que em mim mesmo...

Que uma vida bem empreendida não é uma vida intensa em si mesma, mas uma vida que se intensifica no altruísmo genuinamente cristão...

É uma vida que se presenteia, que se doa, que se entrega... assim como Cristo fez por cada um de nós...

Bendita manhã de sol.


Marcello di Paola

Dedicado a Marcela Yanne

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Certeza do amanhã...

"Tudo fez Deus formoso em seu devido tempo, também pôs a eternidade no coração do homem..." (Eclesiastes 3:11)
    


Há uma grande contradição na condição humana...

Seu anseio pelo infinito e a realidade de sua finitude.

Há algo que não cabe dentro de nós, algo que não conseguimos nomear, mas que sentimos...

Uma espécie de sede insaciada ...

de fome não matada...

de amor não vivido...

de sacrifício não aceito...

de oração não atendida...

Um tipo de vazio que nos fustiga a alma de incertezas...

Uma sensação incômoda de que a vida é mais do que se tem vivido.

O fato é que a condição humana nos impede de sermos plenamente felizes.

O que muitos chamam de felicidade eu chamo de torpor, aquela espécie de felicidade que não nos permite

pensar serenamente sobre nossa finitude.

Mas, por mais que tudo nos vá bem, nos falta a certeza...

A certeza do amanhã.

Amanhã, como será?

Não importa, dirão alguns...viva o hoje, intensamente.

Mas viver o hoje intensamente implica em fechar os olhos para realidades outras.

Por mais que não lembremos, somos uma irmandade terrena.

Viver é um exercício difícil para quem não é egoísta.

Se a lágrima do outro já não não me comove...se só sou capaz de chorar pelos meus mortos, preciso

desesperadamente de um toque divino.

Tenho certeza que Deus nos pensou infinitos.

A morte é uma invenção humana.

É certo que fomos feitos para ser felizes, para descansar em Deus em meio às incertezas do amanhã, porém,

no usufruto de nosso livre arbítrio, optamos por nos desvencilhar do Criador.

Na ânsia de sermos como Deus cavamos nosso abismo existencial e nos perdemos de nós mesmos.

Na ausência de Deus não há certeza de nada e a esperança, moribunda, desfalece.

Mas, se Deus pôs a eternidade no coração do homem, segundo o Pregador, nosso anseio pelo infinito vai

de encontro ao projeto divino.

Assim, nossa incompletude se finda no reencontro com o Mestre, e, por mais incerto que o futuro se nos

apresente, podemos descansar na certeza de que...

Se ELE vive, podemos crer no amanhã.


Marcello di Paola




Dedico este devaneio à minha querida amiga Luandrade





segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Carinho de Deus...

"Ele rega os montes desde as suas câmaras; a terra farta-se dos fruto das suas obras"
(Salmo 104:13)


Por mais que a vida nos presenteie com toda a beleza que há no mundo...

Por mais que tenhamos filhos e amores, saúde e amigos...

Nem mesmo sabemos porque...mas lá no fundo, bem lá no fundo, nos falta algo.

E saímos por aí embriagando-nos de poesia e nostalgia, esforçando-nos para sorrir e cantar, porque é

razoável que seja assim...

Mas a nós mesmos não enganamos... falta algo.

Tomamos caminhos errantes, ainda que quase sempre belos...

Ainda que cenários de paisagens em esplendor enalteçam nosso momento crucial, o encontro da gente com

a gente mesmo, nada pode ser mais doloroso...daí evitarmos nos encontrar.

Até onde alcança nossa vista tudo é lindo e formidável...e até onde vai nossa ilusão, tudo é possível.

Que culpa pode haver no coração que anseia mais do que tem?

Assim é o ser humano...assim sou eu e você, que me lê...assim..somos nós.

Almas inquietas em corpos finitos que anseiam uma eternidade com sentido.

Nos culpamos pelo "algo que nos falta", mas se nada nos faltasse o que buscaríamos?

Temos uma grande necessidade de sermos compreendidos...de sermos lidos nos olhos, porque falar nos faz

sentir fracos e mendicantes de atenção.

Mas ler a alma humana pela janela dos olhos não é tarefa das mais fáceis para um igual.

Daí...

a beleza que nos cerca, a brisa que nos beija a face, o cheiro da natureza, a  paz momentânea e inexplicável

que nos invade, o alívio diante da dor, o conselho mais que oportuno, o pão que nunca falta, a vida em

família, a legião de amigos, os momentos agradáveis que todos vivemos...

Manifestações do carinho de Deus que nos fazem lembrar que tudo que precisamos, Ele nos tem dado.

Deus tem todo o tempo do mundo para nós...

Todo o tempo para nos ouvir, todo o tempo para passear conosco, seja em volta do lago, seja na areia da

praia ou mesmo nas vielas dos labirintos de nossos sofridos corações...

Quanto mais de Deus houver  em mim, menos de mim haverá...

e quanto menos de mim houver...

mais o carinho diário de Deus me bastará.


Marcello di Paola



Dedico este devaneio a Ana Steiner. Grato pela sugestão do tema.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Surpresas da vida...

"Alegrem-se teu pai e tua mãe, e regozije-se a que te gerou" ( Provérbios23:25)


É tão bom quando a vida nos surpreende...quando nos arranca um sorriso espontâneo... que perdura.

Foi esse o efeito em mim causado  por essa imagem...um momento mãe e filha que não é flagrado a todo
instante, não obstante sabermos que tais momentos se multiplicam na privacidade dos lares.

Em dias tão perturbados onde o terror nos estupra a alma e o medo nos assedia, uma imagem dessas nos
faz lembrar que a vida não é só dissabores.

A vida pode ser, sim, como num conto de fadas, feita de felicidades para sempre, quando nos permitimos mergulhar no universo infantil e dele desfrutar, por minutos que sejam.

Ah, como a corrida pela sobrevivência nos tem privado de momentos mágicos...

Como temos permitido às lágrimas usurparem o lugar da alegria em nossas faces descrentes...
descrentes da fantasia que faz do mundo infantil, um planeta de sonhos onde tudo é possível...
descrentes da utopia que aposta numa sociedade melhor à partir da reciclagem de nós mesmos...
descrentes até das palavras do Filho de Deus que afirmou ter vindo ao mundo para nos trazer uma vida abundante.

E que abundância de vida eu vejo nesta imagem, neste encontro das  formas de amor mais sublime que
existe...mãe e filha interagindo alheias à plateia que os rodeia e certamente os admira.

Fico pensando no sentimento de Cristo, quando repreendeu os discípulos que,  em seu excesso de zelo, impediam os pequeninos de se aproximarem...

"Deixai-os, não os embaraceis", disse o mestre...

Jesus sabia que a alegria da criança é o que melhor expressa o sentimento divino em relação às suas criaturas.

Estou certo de que a vida nos reserva muitas surpresas, e parte delas nos passam desapercebidas na medida em que deixamos de viver intensamente cada momento.

Quantas surpresas nos aguardam no âmbito da vida familiar...

Quantas surpresas pelos caminhos que trilhamos cotidianamente , mas que o tédio não nos permite vislumbrar...

Surpresas como esta imagem que me encantou, me emocionou e me conduziu nesse gostoso devaneio, o
qual encerro apropriando-me de um trecho da música "My Way", pois a reflexão sobre a história da nossa
vida tem que nos levar ao ponto de dizer:

Valeu a pena.

"Eu já amei, ri e chorei
Cometi minhas falhas, tive minha parte nas derrotas
E agora, conforme as lágrimas escorrem
Eu acho tudo tão divertido".


Marcello di Paola



Dedicado a Camila Roman de Moraes, Muito obrigado por me ceder a foto.






sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ser igual...



"Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo..." (Carta de S. Paulo, Apóstolo, aos Efésios 5:22)



Enquanto uns procuram com quem se identificar, outros procuram se diferenciar...

Eis a contradição humana...

Desejamos ser únicos, mas não sozinhos...caso contrário quem perceberia nossa exclusividade?

Por natureza ninguém é igual a ninguém.

Penso que  isso tudo tem a ver com a tal da auto imagem... ambos estão equivocados.

Não precisamos do outro nem para se identificar, nem para se diferenciar...

Precisamos do outro para amar...para servir...para se doar.

Uma auto imagem distorcida nos leva a esse truques mentais que alterna identificação e diferenciação, segundo nosso momento.

A grande questão é que somos todos, sem exceção,  imagem e semelhança de Deus.

Não há que se procurar uma identificação já existente e muito menos uma diferenciação inexistente.

Não fosse pelo outro, não seríamos cada qual  um "eu"...

A humanidade flerta com o abismo quando incentiva a individualidade, o egocentrismo, ao invés do altruísmo e abnegação.

Deus se submeteu a ser igual a nós na pessoa do Cristo, empatia...

Mas nós não nos sujeitamos a ser iguais uns aos outros, apatia...

Insistimos em nos destacar...em ser melhor...em subjugar o outro...

Ansiamos por plateias que nos aplaudam, que nos façam acreditar no que desacreditamos, nós mesmos.

Insisto, é tudo uma questão de auto imagem distorcida...

Distorcida pelo pecado, distorcida pela obstinação luciferiana de subirmos até o céu dos céus e assentarmos no trono do altíssimo.

Precisamos mais que nunca enxergar Deus uns nos outros...

Somente Deus, poderia nos fazer tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo.

Submetendo-nos ao projeto restaurador de Deus para nossas vidas, que passa pela cruz, seremos iguais na essência, diferentes nas experiências, mas unidos em qualquer circunstância.


Marcello di Paola

Dedicado à Clécia Janine

terça-feira, 10 de julho de 2012

Confiança


"Em ti confiarão os que conhecem o teu nome; porque tu, SENHOR, 
nunca desamparaste os que te buscam".  (Salmos 9:10)




É triste constatar, mas vivemos dias de extrema desconfiança. As relações entre pessoas que deveria ser a expressão humana da eterna comunhão da Trindade, converteu-se na dúvida que nos leva a desconfiar quase que instintivamente das intenções do outro.

A desconfiança se faz presente em toda parte onde há vestígio de homem.

A beleza e glória do Criador dissipou-se das faces, enfeiando-as e fazendo-as irreconhecíveis mutuamente.

Isso me faz pensar que vivemos uma espécie de esgotamento da credibilidade.

Chegamos ao extremo de perder a confiança em Deus e ainda assim, ou quem sabe por isso, nos julgarmos inteligentes.

Em tempos onde as relações são marcadas pela desconfiança, precisamos redescobrir urgentemente a capacidade não só de confiar, mas de nos fazermos confiáveis.

É necessário olhar mais nos olhos das pessoas, ouvi-las desprovidos de preconceitos...desejar sinceramente saber o enredo de suas vidas...abraça-las sem sentir-se ridículo.

Mas como resgatar algo que se perdeu se não estivermos dispostos a fazer o caminho de volta para encontrá-lo? Isso se refere a tudo, amor, esperança, alegria,  fé, confiança...

Em se tratando de confiança, leva um tempo considerável para construí-la e um tempo maior ainda para reconstruí-la.

De uma coisa eu sei, viver sem poder confiar é viver com medo.

No verso que abre esse devaneio, sugerido por minha fiel amiga Leopoldina Caceres,o salmista fala em conhecimento de Deus.

Sua tese é que a confiança se constrói pelo conhecimento.
Por outro lado, não se conhece sem proximidade. Alguém já disse com muita sabedoria que não se conhece uma pessoa até ter comido um quilo de sal com ela, no que concordo plenamente.

Confiança é algo muito sublime para se ter em qualquer um.

Não adianta proclamar aos quatro ventos que se confia em Deus se não andar com Ele.

No caminho de volta na procura da confiança que se perdeu, verificaremos que acabamos por coisificar as pessoas. Tornamo-las invisíveis desde o momento em que nos dispusemos ao canto da sereia,ou melhor, da serpente, de que somos melhores que o outro.

Ah, se déssemos ouvido aos dois grandes mandamento, nos quais se resumem toda a lei e os profetas, "amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo", jamais viveríamos desconfiados e por isso mesmo, inseguros e infelizes.

O fato é que perdemos a proximidade com Deus e por consequência com os semelhantes, mas aos que se propuserem a buscá-lo e conhecê-lo cada vez mais, experimentarão uma nova dimensão em suas relações...

A confiança será retomada, a segurança, a paz e..
...a alegria de viver.


Marcello di Paola


sexta-feira, 6 de julho de 2012

A felicidade está aqui...


"Já tenho entendido que não há coisa melhor para o homem do que alegrar-se..." 
(Eclesiastes 3:12)



O ser humano deveria andar de mãos dadas com a felicidade, tal qual casal apaixonado...

Deveriam se olhar nos olhos, trocar carícias, rolar na cama, beijar gostoso...

Na verdade foram feitos um para o outro.

Mas eis uma relação que vive, ou melhor, sobrevive sob triste litígio.

Desde que saiu do Éden, cenário perfeito que abrigou amor tão lindo,

o homem procura reatar com a felicidade que se foi.

Vez por outra se esbarram nos descaminhos da vida...

tudo ficou mais difícil, tudo ficou como não era para ser.

A felicidade agora é feita de momentos, dura o canto de um pássaro ou uma chuva de verão...

É visita inesperada e quase nunca se demora, a não ser que se encante com o seu anfitrião...

Que seja este o teu caso, leitor querido, a ponto de estender-se,

emoldurando em teus lábios uma eterna lua crescente.

Deus plantou em nossas almas obstinadas sementes de felicidade, pra serem regadas com a água da vida...

sementes que vingarão na medida que nos sujeitarmos ao projeto divino de restauração.

Lágrimas de tristeza se converterão em lágrimas de alegria e a felicidade, enfim, triunfará.

Em cortejo nupcial rumo ao paraíso definitivo, em meio a valsa dos anjos, eis o ser humano renovado de mãos dadas com a felicidade, trocando olhares e carícias, beijando gostoso,  prestes a se encontrar com o Rei da Glória.




Marcello di Paola

*Dedicado à Leopoldina Caceres